Mostrando postagens com marcador CONTOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTOS. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Amor à primeira lida




     Contava sete anos quando me deparei com ela. Empatia recíproca, entre tantos garotos que lhe fizeram a corte, tinha eu grande chance de ser seu escolhido.
     Era a escola o principal cenário de nossos encontros. Diariamente eram-me reveladas algumas particularidades de sua personalidade, seus meandros e possibilidades. Eram inúmeros.
     Bibliotecas, bancas de revistas, Chico Buarque, Oswaldo Montenegro, Domingos de Oliveria, Glauber Rocha, Aldoux Huxley, George Orwel, Karl Marx e muitos outros que conheci através de seu intermédio fizeram-me ficar mais apaixonado por ela.
     Como saber se era correspondido? Como saber se estava à altura de suas expectativas?
     Como não tinha certeza se teria sucesso ao me declarar para ela, resolvi investir em meu intelecto e conhecimento de mundo. Acreditava que se tivesse leitura e viagem suficiente, conseguiria conquistar seu amor e devotamento.
     Passava o tempo, livros e autores. Cada nova obra que conhecia era um motivo para aumentar minha estima por ela e a incerteza do seu sentimento por mim. Ela era gentil, dócil, amiga, meiga e envolvente. E amor? Ainda não havia resposta.
     Muitas vezes pensara em declarar-lhe minhas intenções e acabar com essa dúvida.
     Em meus devaneios apaixonados, ela tomava a iniciativa e confessava-me que sempre me amou , que o fato de eu lhe admirar já era prova suficiente de amor e de uma união que seria para sempre feliz. Ah, imaginava com tanta concretude que por um átimo essa cena me parecia realíssima.
     Quando atingi a maioridade de meus sentimentos e impulso, entendi que chegara a hora de ser franco, sincero, sem temer a possível rejeição. Ela sabia de meu caráter, minha boa índole e não iria se ofender se lhe expusesse meus recônditos sentimentos.
     Com voz melíflua, em um fim de tarde com o rosto contra a luz segredei-lhe anos de paixão, devotamento e ardoroso amor apaixonado.
     Contei-lhe os inúmeros livros que lera, discos que ouvira, peças teatrais que assistira, debates culturais que participara no afã de estar à sua altura, cultural e sentimentalmente ,e assim, confessar todas as sentimentalidades de enamorado, que fora cativado por ela, enfim, contei-lhe que a amava.

     Ela, como resposta, dissera que o amor sempre esteve entre nós. O amor sempre estará entre cada vírgula e reticências de nossas efêmeras vidas. Assim tornei-me amante da palavra.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

ELE CONHECEU ELE




    Pela primeira vez ele teve coragem de realizar um ritual místico. Lembrou que Marcelo Motta da O.T. O recomendou: quer se conhecer? Pratique expansão mental.
    Ele não via a expansão mental no sentido pejorativo e sim como um atalho para o autoconhecimento.
    Santo Daime, Jurema, União do Vegetal e outros conseguiram canalizar os benefícios da evolução que proporciona conhecer a si mesmo através de certas substâncias.
    Lembrou-se do que ocorreu com o ator cômico de programa popular humorístico Eduardo S. O ator realizou o ritual do Santo Daime e sua única vontade era ficar só. Pode-se presumir que o contato com ele mesmo não foi bom.
    Deve-se considerar que em muitos casos pode ser o enjoo que a gestão do chá do ritual pode causar, mas, o citado rapaz não se queixou de enjoo. Será que ele não se causou uma boa primeira impressão?
    Apesar do exemplo citado ele realizou pela primeira um ritual místico. Pedras do Roncador, agua da lagoa encantada e a caverna escondida ao pé da serra foram suficientes.
    Ele conheceu-se, adorou-se e por fim ficaram amigos. Começara aí uma eterna amizade.